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Nunca falarei desse jeito com meus filhos

3 de abril de 2016

Nunca falarei desse jeito com meus filhos…

 

NUNCA

 

 

Ontem, no Metrô, enquanto esperava meu trem, vi uma mãe com seu filho de 6 anos. A mãe, de forma monótona, o repreendia por qualquer coisa. Fazia mais por hábito que por coragem. Se notava que não era a primeira vez que fazia aquilo. E foi isso que ouvi:
— Mãe, meu estômago dói.
— E quem tem culpa? Te falei pra não ser esganado! Eu comi a quantidade certa e você? Pra que comer tanto? Olha só pra sua calça, como está suja! Ontem mesmo lavei e já está toda suja de novo! Olha o trem chegando, levanta! E suas coisas? Acha que eu vou carregar, moleque? Pegue tudo já, seu enrolado!

O menino pegou suas coisas e entrou no vagão. Ao ver a cena, me senti mal. Por dois motivos. Primeiro, quando eu era menina, falavam comigo da mesma maneira. Segundo, quando estou cansada, me comporto com meu filho exatamente do mesmo jeito…

Tive vontade de sentar ao lado do menino, abraça-lo e dizer: «Não ligue pra isso, você é so uma criança. É normal que não saiba se segurar na hora de comer, você ainda não tem o cérebro tão maduro pra controlar isso, quem deve controla-lo é sua mãe. E é normal que suje sua roupa. E, olha, você não pode esquecer suas coisas, mas agora, como são quase meia noite e você deve estar cansado, isso pode acontecer». Queria dar a ele algumas palavras de carinho que daria a meu próprio filho.

Sentei em outro assento no vagão, fechei os olhos e senti um nó na garganta. Ouvi a voz de minha mãe me criticando a cada minuto. As frases eram dolorosamente familiares:
«Por que você sempre se comporta desse jeito. Como vai ser quando crescer?», etc.

Sim, cresci. E aprendi a me defender. Não permito que ninguém mais fale comigo dessa forma. Foram preciso vários anos de terapia pra entender isso. Tive de reconstruir barreiras destruídas, refazer minha auto estima, aceitar a mim mesma. No entanto, as vozes em minha cabeça seguem ali. E toda vez que fico cansada ou me estresso essa fita recomeça a rodar, com as vozes em minha cabeça.

Hoje, sou mãe e vivo do outro lado do Planeta. Mais de 8 mil quilômetros me separam de minha mãe. Nos vemos muito raramente e poucas vezes falamos por telefone. Na linha, ela aprendeu a guardar para si suas opiniões a respeito de minhas qualidades. E aprendeu a me enviar mensagens de What’s Up dizendo «te amo, filha». E isso porque quando, há apenas uns anos atrás me via na TV participando de programas como nutricionista, ainda me perguntava quando conseguiria um emprego decente.

Se volto a passar mais de um dia com ela, as imagens traumáticas de minha infância voltam à cabeça. Quando ela era menina, tratavam-na ainda pior do que ela me tratava. A mim, só dava uns 2% do mau tratamento que recebia de minha avó.

Assim, passei toda a minha infância repetindo para mim mesma: «Nunca falarei dessa forma com meus filhos». Mas quando estou esgotada, me dou conta de que estou dirigindo a meus filhos palavras que conhecia tão bem.

Não culpo minha mãe pelas coisas que me dizia há 30 anos e pelas que NÃO dizia («Minha linda», «minha querida», etc). Já senti na pele o poder das palavras dirigidas a uma criança e de como nos afetam. É como um programa de computador que não se pode eliminar da memoria com facilidade. Você não pode instalar um software novo enquanto não apagou o antigo.

Sinto compaixão por ela e lamento que tenha tido que passar por tantos maus tratos. Também me compadeço de minha avó, pois imagino que tenha passado por situações ainda piores. E, se voltamos no tempo, encontramos histórias mais e mais pesadas, passadas em tempos de guerras, pobreza e fome.

Só resta a mim amar essas mulheres da família, que sobreviveram como puderam, geração após geração. Agora, a bola está comigo e a estou passando a meu filho; só posso amá-lo incondicionalmente, esperando que essa cadeia de comportamento se rompa.

Só posso, enfim, me desculpar após cada escândalo (e eles, graças a Deus, são pouco frequentes) e explicar o que acontece. E dizer a ele mil vezes o quanto o amo. Abraçá-lo, dizer coisas bonitas. Cuidar dele é como cuidar de uma planta, que dará flores, frutos e, depois, novas plantas. Faço o meu melhor.

Estou fazendo tudo para que as vozes de sua cabeça lhe digam que ele tem o direito de viver. Que tem o direito de amar e ser amado simplesmente por te nascido. Que não precisa fazer nada para merecer esses direitos. Que é bonito, inteligente e talentosos, que tem um enorme coração e que, quando crescer, será um verdadeiro homem. E ele já começa a se comportar como um; Me abre as portas, não me deixa carregar coisas pesadas. E ele faz isso de forma intuitiva, pois não sei se ensinei.

Quanto mais me esforço por meu filho, menos força têm as vozes em minha cabeça. Sim, elas seguem presentes, talvez estejam sempre alo. Mas nem sempre dou atenção a elas. Às vezes elas soam como o ruído de carros por trás das janelas. O ser humano se acostuma com tudo. Não procuro mais ganhar o amor dos outros. Tento ser eu mesma.

Entendo bem que esta não é uma história só minha. Muita gente tem baixa auto estima. E até que mudem isso, não verão mudanças. Não existirão eleições justas nem ruas limpas. Em vez disso, teremos guerras com nossos vizinhos, roubos, degradação.

Sinceramente, não sei como ajudar as pessoas a calar as vozes interiores que dizem que não servem pra nada. As que os obrigam a se embriagar para baixar o volume dessas vozes. Ou gritar com seus filhos e odiar todo mundo.

Mas acredito que cada um deve começar consigo mesmo. As pessoas devem buscar especialistas, meditar, orar, fazer yoga, corrida, cada um escolhe o que for melhor.

Mas não se esqueça: procure querer seus filhos e as seus pais, que não são perfeitos e às vezes o agridem. Quando você aprender a fazer isso, aplique a sabedoria em suas relações como vizinhos, no trabalho e até com desconhecidos. Quando começar a mudar a si mesmo, o desejo de mudar os outros será menos forte.

Quando cada um começar a respeitar a si mesmo, então talvez tenhamos eleições justas e ruas limpas.

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